O peso do Eu

 Talvez eu já esteja tão cansada, ou tenha caído na real, mas eu não sei se sei me relacionar amorosamente.

Depois de uma série de coisas que acontecem na nossa vida, os resquícios parecem estar sempre ali. A culpa, a dor, o medo, a insegurança... cada um veste uma roupa de permanência e se estabelece nos cantinhos onde a vassoura mal chega. 

Eu comecei a pensar em cada vez que me permiti conhecer o amor de cada uma das pessoas com quem me relacionei. Os rostos foram surgindo um a um, e depois dos rostos, os momentos de conforto. Depois daquela sensação gostosa de saudosismo, me forcei a lembrar dos porquês de nada ter continuado.

Lembrei que já fui traída, que já trai, que fui estuprada (mais de uma vez), que fui abusada, coagida, mal tratada, diminuída, e de todas as vezes que eu simplesmente não conseguia dizer o que tava acontecendo comigo. As flores do começo de cada encontro murcharam muito mais rápido do que eu imaginava que tinham acontecido.

Teve vezes que fui bem tratada também, e nessas, não soube lidar com a mesma naturalidade e jogo de cintura que tive nas vezes que aconteceu o oposto.


Eu não sei receber o que o outro me oferece, né?

Eu acho mesmo que não.


Toda essa parada da estrutura cultural, social e econômica me foderam.  Eu me perdia em troca de um sexo meia boca, de uma promessa vazia, de uma esperança que eu mesma construí. Eu era (e sempre serei) refém das minhas escolhas.


Hoje eu me olho no espelho com um sentimento de ambiguidade terrível: vejo uma mulher que tem a habilidade e a criatividade que sempre sonhou em ter, e ao mesmo tempo eu vejo um corpo sofrido, que eu só gosto por conta dos processos que escolhi fazer, mas que não é boa o suficiente pra ninguém.


A cada novo encontro, eu nem sei mais o que esperar. Eu juro que vou com o coração aberto pro que for, escuto, converso, faço piada, dou risada. A única coisa que todo mundo enxerga é o corpo que eu nem gosto muito. Que merda. 


Depois do encontro, vem todo aquele trabalho de manutenção de interesse. Mensagem, meme, cotidiano. Eu sou muito ruim nessa parte. O pior é que a imaginação alheia me vê como um Sheik árabe num harém, eu não sou ativa na arte da conversa a distância, entao, provavelmente, eu deva estar dando atenção pra mais uns 25 caras, escolhendo em qual vou sentar hoje (ironia veio de brinde nessa).


Mas sério, eu vivo reprisando tudo na minha cabeça, cada passo, cada fala, meço minhas atitudes, mal consigo fazer cocô na casa dos outros de tanta apreensão. Parece que eu tô sendo analisada pra vaga de emprego amoroso, que inclusive, é anunciada pelo próprio dito cujo o tempo todo pra mim, e eu não enxergo nem a proximidade suficiente pra isso acontecer.


Eu tô tão cansada e triste.

Principalmente comigo.


Como eu deixei tudo isso acontecer comigo?

Eu não lembro a última vez que eu estava 100% confiante e alegre sobre mim.


E é por isso que eu precisei escrever tudo isso e usar tantas vezes a palavra EU.

EU importo. EU sonho. EU amo. EU sou.


E sendo, EU vou continuar lendo e relendo tudo isso pra lembrar de quem mais importa, é de quem merece ser, verdadeiramente, feliz e amada.


Eu.


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